
Tite carrega o peso da história. Não lhe pouparam as guerras e a povoação de quartéis fantasma, ainda procura o rasto da vitória. Ainda não lhe chegou o sabor.Entre o amontoado de casernas do tempo colonial, uma escola improvisada, um pequeno mercado e as árvores centenárias, resistem ainda as mulheres, erguidas na força da sua horta, do seu campo comunitário, pernas carregadas da vida, dos filhos, da bolanha, dos homens. Aqui não se pode parar. O ritmo das chuvas, da boca… nada espera por elas. Por isso, o tempo do descanso ainda não chegou aqui.Como tu me disseste, a verdade é que não é uma horta que muda alguma coisa. E aí, as nossas contradições caíram no chão que nem mangas maduras. Ainda que povoemos o campo de hortas, de estradas, de poços e de canoas, nada vai mudar porque persistirão os sistemas desequilibrados de poder, a negação dos direitos, o grito abafado. A voz persiste em ser um privilégio de alguns.Assim, pensei e penso tantas vezes se o caminho será simplesmente baixar os braços. Desistir, sair, para não manter este sistema de hipocrisias e de permanentes tentativas que se perdem pelo caminho. Que alternativas temos neste momento?Em João Afonso puxaram-me as orelhas. Não é o que vocês querem é o que nós queremos. E aquele ”NÓS”, construído ali perante a minha arrogância foi talvez das maiores aprendizagens destes tempos. E foi em Cabo Verde que encontrei a resposta para aquela pergunta que me andava (e se calhar ainda anda) a preencher. Apenas a construção de um nós pode enfrentar, verdadeiramente, os desequilíbrios, as desigualdades, a persistência da injustiça. Este “NÓS”, será então um grito construído em conjunto reclamado a partir de pessoas concretas, que carregam histórias, algumas delas bem antigas. E essas histórias, assumidas na sua plenitude, permitem-se partir do mesmo ponto e fazer caminho.